Uma nota sobre "O agente secreto".
- Marcos Schmidt

- Mar 23
- 2 min read
Os anos 70s foram bem estranhos. Estão meio na moda por causa do filme "O agente secreto", que fez uma belíssima reconstituição da época. As camisas com as lapelas enormes, estampas mirabolantes, as calças boca de sino. E, no Brasil, ditadura militar.

São José dos Campos, onde eu nasci, era uma cidade com status político especial, de interesse estratégico. Não havia eleição nem para prefeito. Botavam lá um alcaide simpático aos interesses dos militares. E tinha um monte de indústrias de armamentos, do tipo Avibrás, Engesa, uns troços tipo o CTA (Centro Técnico Aeroespacial) e o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), tudo meio isolado do resto da cidade (militares não gostam de se misturar com a ralé dos paisanos) e estritamente controlado por militares.
Lembro vagamente das blitzes de militares à noite (sempre à noite), algumas para passarem comboios de veículos militares cobertos de lona verde que me deixavam apavorado. Uma vez eu estava com um revólver de brinquedo, daqueles de espoleta, que joguei para debaixo do banco do carro, crente que seríamos presos por causa disso.

Havia a polícia. Estranha polícia, curiosa polícia, sinistra polícia. E os gansos, uns caras que não eram nada mas que estavam sempre junto dos policiais, uma hora informando, outra hora sendo informados. Sempre com uns relógios bacanas, digitais – os primeiros que eu vi – umas calças Levi’s novíssimas, casacos de couro marrom, óculos Ray-ban verdes, correntes e pulseiras de ouro, uns uísques sei lá de onde que davam de presente, uns bigodes gigantescos, tipo o Leôncio do Pica-pau, sempre falando alto, sempre falando grosso, rindo muito, riam demais, histriônicos, forçados. De repente sumiam para fazer ou receber um telefonema importante, e quando voltavam, voltavam calibrados, excitados, ainda mais falantes. Tudo para meter medo e se fazerem de importantes. Para fazer parte da tigrada.
Na escola, era o culto a bandeira, toda semana, e matérias como as famigeradas OSPB (Organização Social e Política do Brasil) e EMC (Educação Moral e Cívica) que ensinavam como ser um cidadão conformado, passivo, apático e alienado, e, para completar, uns diretores e professores autoritários, reacionários, tarados pela força e pela truculência.

Era um clima sempre muito estranho. Acho que esse é um dos maiores méritos de “O agente secreto”: a captura dessa atmosfera algo passivo-agressiva que permeava as relações o tempo todo, em todos os lugares. Um medo difuso, de um Estado inimigo da população, e de seus agentes secretos, oficialescos, informais, ridículos e macabros.
Os cabelos, os bigodes, as costeletas, as roupas, os móveis das casas eram sempre engraçados, coloridos. Uma camada de verniz fininha para encobrir o cinza desesperançado e o verde oliva tenebroso que eram as verdadeiras cores do Brasil.



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