Comédia de erros
- Marcos Schmidt

- Mar 21
- 3 min read
Poderia escrever um livro das tretas e trapalhadas de bandas que presenciei ao longo dos anos em que trabalhei fazendo capas e encartes para o pessoal independente.
Este é um exemplo clássico. É de 2017, pouco antes da polarização que tomou conta do Brasil. Mas o ovo da serpente já estava se rompendo.
A banda me passou a ideia (me recuso a usar o termo briefing): o álbum se chamaria “o mundo serve ao mal” – em inglês porque daí as pessoas não percebem muito bem o quanto as letras são ruins (mais uma coisa que aprendi ao longo dos anos trabalhando com dezenas de bandas). Beleza.
Aí imaginei o seguinte para os caras da banda: que tal uma variação de uma pintura de um seguidor de Hieronymus Bosch, Cristo carregando a cruz, substituindo as personagens originais da pintura por personagens atuais, um monte de tranqueiras, de gente ruim e hipócrita que, tanto antes como agora, levariam o Cristo ao calvário sem nenhuma dor na consciência? Gente feito Malafaia, Bispo Valdemiro, Janaína Paschoal, Goebbels, Michel Temer, Edir Macedo, Feliciano, General Franco, General Videla da Argentina, o Trump (o do primeiro mandato), o Dória, e mais um monte de gente desse quilate. Percebam que coloquei Bolsonaro lá no fundo, quase por acaso, porque nessa época ele ainda era um deputado de baixíssimo clero sem nenhuma perspectiva de sair dessa condição de político subalterno.




Essa concepção funcionaria ainda para dar um boost na promoção do álbum da banda, que contava com um suposto especialista em marketing bom de promover bandas de metal extremo. Seria ótimo tema para jornais e sites da época: “Banda de metal extremo elenca várias personalidades que levam Cristo ao calvário”, ou “Banda faz um quem é quem do que há de pior no mundo”, ou mesmo “Saiba quem são os políticos e religiosos que conduzem Jesus para a cruz”. Até aí tudo bem. Mas... aí começa a comédia de erros.
Bom, os próprios membros da banda não sabiam quem eram as personagens retratadas. O tal especialista em marketing menos ainda. E nenhum deles tinha o menor interesse em saber. A promoção foi mínima e ruim. O baterista percebeu que a coisa ia mal e saiu da banda. O show de lançamento do CD não tinha CDs para vender: o membro da banda responsável por fechar com um selo da Suécia foi engabelado e os CDs que o sueco havia mandado como um favor para a banda ficaram retidos na alfândega porque o membro responsável perdeu os prazos de retirada.
E, diga-se de passagem, foi um puta show – a banda mandava muito bem, death metal de primeiríssima linha. O público ficou entusiasmado, mas não tinha CD para comprar...
Bom, aí chega 2018, o Brasil enlouquece de vez, e a banda vai se desfazendo aos poucos. Tretas internas (noutro post tratarei dessas coisas) e a polarização chegam ao coração da banda. Um se descobre bolsonarista e reacionário, outro se revela um progressista solitário, e os outros ficam na confortável posição de “não me meto com isso, eu só toco”. Gravam mais um excelente álbum que quase ninguém ouviu porque eles próprios sabotam a banda incessantemente.
E assim mais uma banda morre, não com uma explosão, mas com um suspiro (foi mal, T. S. Eliot)...
(Ah, o selo sueco é quem ainda detém os direitos das músicas da banda.)





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